Inveja engorda

Taí uma palavra que, desde que me entendo por gente, evito utilizar. Inveja. Incomoda até escrevê-la. Na verdade, sempre neguei a existência real desse sentimento, repudiando, muitas vezes, comentários rasos que tudo a esse substantivo abstrato culpam. Sabe aquele povo que se acha invejável? Do tipo adesivo num estrupício de carro: "Não me inveje, trabalhe". Ou as criaturas adeptas da figa e da mania de culpar os outros pela falha de algo, atribuindo a desgraça ao "olho gordo" de alguém. É, sempre tive muita raiva desse argumento, porque quem somos nós para causar tanto incômodo em alguém? Somos melhores? Mais saudáveis? Mais bonitos? Grande merda! Seríamos, nesse caso, muito fracos ao ponto de sucumbirmos e não determos poder algum nesta vida, não? Deveríamos nos concentrar no nosso estado, nos nossos pontos positivos e na melhoria dos aspectos negativos... Bem, era assim que eu pensava até os últimos dias. Estava enganada, em parte. A inveja existe, e não é porque nunca a experimentei que posso negá-la. Não há outra explicação para pessoas que, tão próximas, não se satisfazem com a sua satisfação. Para aquelas que se incomodam com o fato de você existir e, somente na cabeça delas, ser um tanto quanto mais próxima da perfeição do que elas.  Loucas? Talvez. Só há insanidade em supor que sua felicidade é grandeza inversamente proporcional a do outro. Ou de que existe perfeição (e ela deve ser destruída! Grrrrr). E que somente é feliz quem se destaca sobre a carniça alheia, quem tem parâmetros ou felicitômetros ou perfeitômetros. Talvez também seja algo muito perto do amor (doentio, claro). Do tipo: ela ama tanto, mas tanto aquela outra que rejeita os amigos alheios ou tenta envenená-los contra o objeto de sua inveja. Que tenta seduzir seus namoradinhos adolescentes. Ou até pegar a rebarba da saliva depois de uma noite nada triangular. Valha-me, Deus! Não adianta tentar divagar; nunca compreenderei essa porcaria de sentimento das trevas. Só espero que nunca venha a experimentá-lo para não ter no meu rosto a expressão deprimente que tenho observado nos acometidos por esse mal, que mata e engorda. 

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Facetrix

Antes de tudo, um excelente espaço para os estudiosos da psiqué e das artimanhas emocionais. Tal pode ser a grande sacada do Facebook, se nos desdobrarmos do corpo congelado naquela cena rotineira protagonizada pela tela cheia de rostos. Ao sairmos de nós mesmos, ali num estado de "pause", talvez alcancemos visão panorâmica, privilegiada do que se passa nas entrelinhas ou nos entreposts. E é possível, nesse estado, vermo-nos maltrapilhos e esfomeados, em estado de transe, concetados todos, plugados pela nuca, num dispositivo que dá acesso à Matrix. Ou a qualquer dimensão de um mundo tão real quanto o de Papai Noel ou do Coelho da Páscoa. Lá somos lindos, livres e autênticos. Somos ricos, cheirosos e críticos. E como somos críticos! Afinal, se as fotos de nosso perfil e as descrições sobre nosso gosto musical constroem nosso avatar de perfeição, por que não utilizarmos também os programas de moralismo e de semideuses dos quais fizemos download para lançar mão na Facetrix? Programamos mecanismos de alto poder e ofertamos verborragia aos quatro cantos do mundinho que aceitamos como nosso. Para tanto, temos o apoio do nosso amigo Google, o Oráculo, que nos fornece frases de pessoas célebres, cuja genialidade acabamos por anexar também ao nosso banco de dados. Somos e podemos tudo. Tratamos dos temas os mais polêmicos com a propriedade de quem está acima do Bem e do Mal. Tachamos as pessoas com os adjetivos mais ferinos. Em alguns momentos, despertamos com a nuca desplugada. E vemos nossa figura cadavérica perecer. Lembramos dos nossos defeitos e crimes e de como temos exatamente as características daqueles que condenamos com belas palavras. Mas é só por um tempo. Logo voltamos ao nosso mundo de pequenos quadrados, rostos que falam com graça e que se abraçam com a cortesia dos que reinam. Que dormem o sono dos justos. E que se alimentam de frases de efeito para entorpecer a necessidade de se evidenciar e chamar a atenção do outro e escondem a autoestima mais baixa que o chão.

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Mulher macho sim sinhô

Enquanto isso, na sala de esteiras...chega uma segunda garota para sua corrida habitual. O carinha já tinha achado engraçado o fato de eu ter desligado o aparelho - há um para cada esteira - quando passava Big Brother, e ter ligado para assistir ao jogo do Santinha. Na segunda moça, ele não se conteve: - Olha, você pode mudar de canal com aquele controle-remoto. E a menina: - Não, é esse mesmo que quero assistir. E quedou-se perplexo ao observar os comentários entre as duas desconhecidas interessadas no futebol. Lembrou-me duas ocasiões em que fui chamada de "macho" por amigos, e que me incomodaram bastante. Pelo fato de constatar a imagem de mulher que eles têm. Você não é mulher se você não desceu do carro ofendida quando eles falaram da boazuda que atravessava a rua. Você não é mulher se você não abaixou os olhos e foi preparar petiscos para a cerveja - que jamais deverá compartilhar com eles. Você é macho se demonstra naturalidade em papos sobre conquistas, casais e sexo. É macho se ofende-se com machismo, se tem atitude e se não tem macho até.
Enquanto isso, no banheiro feminino...as mulherezinhas contam como o cartão de crédito e o carro das suas presas são melhores do que os das outras. Ou como eles caíram feito patinhos na conversa delas após o perfume novo e o almoço de domingo. As traições. As futilidades. Isso é que é mulher! Calada, obediente e sempre pronta para agradar seu homem. Qualquer semelhança com os anos 1950 é mera coincidência. Porque, naquela época, não havia Big Brother nas TVs particulares de esteiras de academia. 

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A lua e eu

Daquelas fases em que a gente tem mania de personalizar tudo. Vitimizar-nos. Mania de perseguição aguda momentãnea, como se poderia definir. Sabe olhar pra lua e achar que ela tá mudando por você? Há uns dias tava tudo escuro no céu negro. Foi por causa daquela tal decisão que acabou o que era doce...Hoje, já crescendo, luminosa, ela me acompanhou na janela do ônibus. Estava tocando música de luau no fone de ouvido, embora a seleção fosse só com as melosas. Vai estar cheia, como eu, por uns dias. Sorriso prateado, mas prestes a estourar de tão plena de tudo. No ápice destes dias onde mal vejo o céu, minguarei com ela, e com eles, numa nova fase de quase-luz. Mas eu serei Sol. Ela, o mesmo satélite sem luz própria. Ele, em definitivo, vai dizer sim à noite. Sempre preferiu a lua... 

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Medo do mais do mesmo

Sabe a diferença entre Regina Duarte e eu? Não tenho medo. Sim, muito infame essa piadinha; perdoável, no entanto, por considerar o mesmo nível do ridículo a covardia, o medinho da vida, a frescurite que confere um ar Pati ou donzela de faroeste a muitas minas por aí. Não que seja destemida de tudo, heroína, peito de aço. A tirar pelo pavor a sapos, bandidos e patins. O caso é que o desconhecido, em vez de assustar, me encanta. O escuro pode revelar uma bela paisagem ao acender do interruptor. O túnel, aquela velha luz. E o que se desconhece, algo de bom. Sim, porque o previsível não permite esperança, expectativas múltiplas, escolhas sem fim. E é disso que me queixo, de quando a gente já sabe onde os caminhos vão dar. De quando a monotonia chega mesmo antes da parte boa. Do saber da frustração vindoura, da sensação de filme assistido, figurinha repetida. Isso é que dá medo: mais do mesmo. Como uma amiga querida, que acabou um relacionamento infrutífero há pouco e não sabe viver sem o cara que praticamente só a deixava mal, assim como outros que o mesmo fizeram. Ela, pelo jeito, não teme a repetição, a produção em série de desgraças, o disco riscado. Talvez se sinta mais segura com o que conhece. Aquela coisa de quando a vítima se apega ao algoz com medo que venham outros cujas malvadezas desconheça. E olhe que é uma coisa quase sem querer. Não creio, porém, em segurança, mas em algo que nos bote pra cima, faça bem, traga luz. E, nesse caso, o que não sabemos é ouro! Pode ser tragédia, porcaria, tempo perdido [acho que estou usando clichês de títulos de Legião demais aqui...], mas também pode ser a melhor coisa da vida, êxtase, alegria, construção. Válido, portanto, acreditar num porvir misterioso. Porque ser/ver A Namoradinha do Brasil assustada ninguém aguenta mais.  

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Complexo de Sula Miranda

Daqueles assuntos de quando já tá faltando assunto na mesa feminina. Quase um jogo da verdade, com figurinhas divertidas sobre cafuçus. Contávamos peripécias da categoria Profissão. Saiu de tudo, de operador de fotocopiadora a mágico, passando por puliça e até bombeiro. Mas uma palavra pasmou o grupo: caminhoneiro. Ela já disse sorrindo, meio baixinho, como que a confessar somente pelo dever. Não passou batida, porém. Todas queriam saber da aventura Sula Miranda da garota, que, em vez de cobrir o rosto com as mãos, ensaiou um olhar saudoso de quem comeu e gostou (no bom sentido). Narrou o acontecido, o romantismo do rapaz, o nível alto de paixão daqueles beijos, a pegada do operário das estradas. Destacou também o respeito, a consideração, a paciência. "Coisa rara entre os cults, não?". Verdade. Logo todas se imaginaram no conforto da boleia, a ouvir Roberto Carlos, brincando com aqueles rosários e fitinhas pendurados no retrovisor. Contemplariam o grande adesivo do Cristo. Quiça o próprio crucifixo, dependendo da fé. Cada uma delas imaginou seu rosto tatuado no braço do robusto caminhoneiro, seu nome no parachoque, no meio de frases de amor. Suspiraram junto à nostálgica primeira-dama do Clube Irmão Caminhoneiro Shell. A boyzinha de Pedro e Bino. A inspiração de longas estradas. E quiseram ter estado lá.

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Mulheres ruminantes

Pode guardar no bolso a piadinha óbvia de deduzir da expressão a figura vaca. Trata-se sim de pessoas que ruminam, de mulheres que ruminam algo além do capim - igualmente propício a exaustivas mastigadas -: sentimento. Era assim que ela se sentia, disse à amiga enquanto brincavam. Sim, após uma noite de vinho, Roberto Carlos, castanhas e muito chocolate, restava-lhes o desafio de montar o brinquedo novo das crianças, que, apesar de recomendado para a faixa a partir dos 5 anos, custou-lhes de 40 a 60 minutos. Era como tentar compreender aqueles homens - matos indigestos que, sabe-se lá como e por que, estavam ali nos compartimentos estomacais do coração. "- Estranho como realmente me sinto ruminar todos os amores. Posso sentir o gosto amargo agora mesmo", traduzia. Talvez por reflexo, a amiga pôde sentir certo fel nas papilas gustativas. Ruminava também mágoas de outrora e de pouco atrás, todas juntas, como formassem um musgo travoso de umbu-cajá. Devia ser o fim de ano. Ou o vinho que avinagrava depois das tantas. Sentiam-se, no entanto, empachadas mais de um sem-fim de frustrações do que qualquer alimento em demasia. Talvez fosse a hora de digerir de vez ou de botar pra fora cada rancor mal engolido, cada azia suportada, cada amor posto goela adentro. Podia ser difícil como o jogo de montar infantil. Mas havia de se conseguir, mesmo que muito tempo depois do limite recomendado para maiores de 5 anos.

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A criatura criadora

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Recife, PE, Brazil
Pares e plurais; 8 ou 80; mãe de 2; pedra 90; anos 80; não troco 6 por meia dúzia; sem meias palavras; mês 12 de sagitário; jogo dos 8 erros; 24 horas pra viver tudo; direito a segunda chance; somas e multiplicações me interessam.

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